Home / Blog / Modelo do Pix coloca em questão o domínio financeiro dos EUA sobre o Brasil.

Modelo do Pix coloca em questão o domínio financeiro dos EUA sobre o Brasil.

Modelo do Pix desafia controle financeiro dos EUA sobre o Brasil

O sistema de pagamentos Pix do Brasil se tornou um dos focos de atenção do governo dos Estados Unidos (EUA), em parte devido ao seu desafio ao controle financeiro de Washington sobre a rede de pagamentos eletrônicos no Brasil. Essa análise foi feita por especialistas em economia e relações internacionais consultados pela Agência Brasil.

A principal justificativa do governo Trump para classificar o Pix como um dos motivos para o aumento de tarifas de 25% seria, de fato, geopolítica, em vez de uma questão econômica pura, motivada pela concorrência com empresas americanas como Visa, MasterCard ou WhatsApp Pay.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, ressalta que o ataque ao Pix está intimamente relacionado à diminuição do poder e controle dos EUA sobre o sistema financeiro brasileiro.

“Essa ação evidencia que os EUA desejam manter o controle que exercem sobre o sistema financeiro em várias partes do mundo. Não é à toa que a China optou por não usar Visa e Mastercard; ela desenvolveu seus próprios sistemas, o que está ligado a uma maior autonomia e soberania do país”, afirmou.


20/07/2026 - O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva. Foto UFRRJ/ Divulgação
20/07/2026 - O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva. Foto UFRRJ/ Divulgação

O professor de economia da UFRRJ, Maicon Cláudio da Silva, menciona que o ataque ao Pix está diretamente ligado à perda de poder dos EUA sobre o sistema financeiro brasileiro – Foto: UFRRJ/ Divulgação

Silva observou que o Pix ampliou a inclusão financeira da população brasileira, resultando em benefícios econômicos também para as empresas americanas.

“Transações que antes eram realizadas somente em dinheiro agora ocorrem via sistema financeiro, por meio do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, possivelmente, também a cartões de crédito”, detalhou.

Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, impulsionados pela adoção do Pix, representando um crescimento de 10,1%, conforme dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Perdas econômicas imediatas

Dado que os EUA mantêm um superávit comercial com o Brasil, o aumento das tarifas tende a afetar mais as empresas americanas, conforme apontou o professor da UFRRJ. Nesse cenário, os interesses econômicos imediatos são frequentemente ignorados.

“Imediatamente, essas tarifas prejudicam mais os EUA. Portanto, essa é uma política econômica internacional que visa exercer poder através de sanções e tarifas, pressionando os países a se submeterem aos EUA”, concluiu.

Pix como instrumento de poder

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, destacou que o Pix se tornou uma ferramenta de poder para o Brasil, aumentando a soberania econômica e financeira do país.


20/07/2026 - O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona. Foto: Sindicato dos Bancários da Bahia/ Divulgação
20/07/2026 - O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona. Foto: Sindicato dos Bancários da Bahia/ Divulgação

O professor de geopolítica da ESG, Ronaldo Carmona, mencionou que o Pix se tornou uma ferramenta de poder para o Brasil – Foto: Sindicato dos Bancários da Bahia

“Aumentando a autonomia e a soberania do país, o Brasil favorece o comércio bilateral com outras nações utilizando moedas nacionais, evitando a senhoriagem do dólar e a arbitragem”, comentou.

Carmona também mencionou que o Banco Central possui acordos de cooperação técnica com 47 países para a adoção de sistemas similares ao Pix, o que pode enfraquecer ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras globalmente.

O Pix barreira sanções

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, limitam a eficácia das sanções econômicas impostas pelos EUA contra instituições e indivíduos, “ao contrário do que ocorre com os sistemas baseados nos EUA”, esclareceu Ronaldo Carmona.

Isso se deve ao fato de que os sistemas de pagamentos americanos geralmente acatam as sanções da Casa Branca.

Maicon Cláudio da Silva mencionou as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o embargo a Cuba como exemplos de como Washington exerce poder sobre países soberanos através de bloqueios financeiros.

“O endurecimento do bloqueio econômico dos EUA contra Cuba levou a Visa e Mastercard a interromper suas operações na ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os EUA podem, a qualquer momento, instaurar sanções econômicas contra países ou indivíduos”, explicou.

A Europa busca soberania financeira

Em um artigo publicado pouco antes do anúncio do aumento das tarifas contra o Brasil, a revista britânica The Economist indica que o sistema Pix, junto com outras iniciativas da União Europeia (UE), ameaça a “supremacia” financeira dos EUA.

“A emergência de sistemas ‘soberanos’, notadamente na Europa — um importante mercado para a Visa e a Mastercard — pode desgastar suas margens operacionais de mais de 50%”, afirma a publicação especializada em finanças globais.

Recentemente, a UE apresentou o Euro Digital, um sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, projetado para ser gratuito e acessível ao público, com lançamento previsto para 2027.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, manifestou que o objetivo é diminuir a dependência de sistemas estrangeiros.

“Atualmente, dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, algumas vezes, das chinesas, para organizar pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque desejamos ser soberanos internamente”, declarou ao portal Euronews.

Link da matéria