Governo Central registra déficit primário de R$ 73,8 bilhões em março, com pagamento de precatórios — Ministério da Fazenda

O Governo Central registrou déficit primário de R$ 73,8 bilhões em março de 2026, influenciado principalmente pelo pagamento de precatórios no período. No acumulado do primeiro trimestre, o resultado é negativo em R$ 17,1 bilhões. Os dados foram divulgados na quarta-feira (29/4) pelo Tesouro Nacional.

Em relação a março de 2025, quando houve superávit de R$ 1,5 bilhão, o resultado apresenta piora, explicada pela mudança no calendário de pagamento de despesas judiciais. “Isso é resultado – quando a gente compara com o ano passado – do pagamento de precatórios”, afirmou o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Cardoso Leal, durante entrevista coletiva na sede do Ministério da Fazenda, em Brasília.

Segundo ele, a diferença no calendário desses pagamentos – realizados em março neste ano e em junho no ano passado – explica a variação observada na comparação interanual.

Também participaram da entrevista o subsecretário de Planejamento Estratégico da Política Fiscal, David Rebelo Athayde, e o coordenador-geral de Planejamento Estratégico da Dívida Pública, Luiz Fernando Alves.

Receitas
A receita total do Governo Central somou R$ 235 bilhões em março, com crescimento real (descontada a inflação pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA) de 5,1% frente ao mesmo mês de 2025. Já a receita líquida apresentou alta real de 7,5% no período.

O desempenho foi impulsionado principalmente pelo aumento na arrecadação de Imposto de Importação, Imposto de Renda e Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), além da elevação da arrecadação líquida para o Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Por outro lado, houve redução nas receitas de dividendos e participações. “Em março, houve um aumento de Imposto de Importação. Então, por mais que tenha tido uma apreciação cambial, isso acaba fomentando um pouco o consumo de produtos importados”, explicou Leal.

No acumulado de janeiro a março, a receita total alcançou R$ 783,2 bilhões, com crescimento real de 3,4% em relação ao mesmo período de 2025. A receita líquida avançou 4,2% na mesma base de comparação.

Entre os destaques positivos no ano estão o IOF; o Imposto de Renda; e outras receitas administradas. Em sentido contrário, contribuíram negativamente as quedas nos dividendos e participações, além da queda na exploração de recursos naturais. “A gente espera que o pagamento maior seja no segundo semestre, então a gente não tem nenhuma expectativa de queda de receita de dividendos comparada com o ano passado”, enfatizou o secretário.

Despesas
As despesas totais atingiram R$ 269,9 bilhões em março, com aumento real de 49,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O crescimento foi fortemente influenciado pelo pagamento de precatórios, especialmente nas rubricas de sentenças judiciais.

Também contribuíram para a alta os gastos com benefícios previdenciários, pessoal e encargos sociais, além da elevação das despesas discricionárias.

No acumulado do ano, as despesas somaram R$ 648,1 bilhões, avanço real de 18,3% frente ao mesmo período de 2025. Entre os principais fatores estão o aumento dos benefícios previdenciários, das despesas com pessoal e dos pagamentos de precatórios.

“Cabe destacar a redução de uma das despesas, relacionadas à compensação do ICMS, porque o programa já acabou. Então, a gente não está mais retomando esse pagamento para os estados”, salientou Daniel Leal.

Resultado em 12 meses e trajetória fiscal
O resultado primário acumulado em 12 meses até março foi deficitário em R$ 136,5 bilhões, equivalente a 1,03% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o Tesouro, o indicador foi impactado pelo pagamento de precatórios em dois momentos dentro da janela de 12 meses.  

Ainda assim, a série histórica indica melhora gradual do resultado fiscal em relação a períodos anteriores, com redução do déficit como proporção do PIB. “No período de mais ou menos 10 anos, em percentual do PIB, a gente vê a evolução, saindo de déficit na casa de 2%, 2,5% para um déficit na casa de 1% do PIB”, comentou o secretário. Diante disso, segundo ele, “o que foi publicado no Bimestral [Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias (RARDP) do 1º bimestre] se mantém”, reafirmando a manutenção das projeções fiscais ao longo do ano.

Previdência e execução orçamentária
O resultado da Previdência Social também foi impactado pelo pagamento de precatórios, contribuindo para a ampliação do déficit no período.

O déficit do RGPS somado ao RPPS Civil e às pensões e inativos militares totalizou R$ 474,1 bilhões (3,6% do PIB) no acumulado em 12 meses até março de 2026. Segundo o Tesouro, o aumento do déficit do RGPS de março de 2025 a março de 2026 (R$ 28,1 bilhões) decorre do efeito conjunto do aumento de R$ 71,8 bilhões dos benefícios previdenciários e da elevação de R$ 43,7 bilhões da arrecadação líquida do RGPS.

No acompanhamento da execução orçamentária, o Tesouro informou que foram pagos R$ 176,2 bilhões em restos a pagar até março, enquanto R$ 109,8 bilhões permanecem pendentes e os restos a pagar cancelados somam R$ 5,4 bilhões.

Regra de ouro e arcabouço fiscal
No âmbito das regras fiscais, as projeções para a margem da Regra de Ouro em 2026 apontam uma insuficiência estimada em R$ 282,8 bilhões, indicando que as operações de crédito podem exceder o montante das despesas de capital no ano. 

Regra de Ouro (art. 167, inciso III, da Constituição Federal) veda que as receitas de endividamento (operações de crédito) sejam superiores às despesas de capital (investimentos, inversões financeiras e amortização da dívida).

O cenário depende de aprovação de créditos adicionais pelo Congresso Nacional ao longo do exercício, mas está “em linha com o que foi previsto na Lei Orçamentária deste ano, de R$ 288,1 bilhões”, segundo o subsecretário David Athayde.

Já a receita líquida ajustada – indicador que baliza o crescimento das despesas no novo arcabouço fiscal – apresentou expansão real de 5,55% em março, segundo o subsecretário. “A receita líquida ajustada encerrou em março de 2026 com crescimento de 5,55% em termos reais”, destacou David Athayde.

Projeções
De acordo com o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias (RARDP) do primeiro bimestre, a previsão para 2026 é de déficit primário de R$ 59,8 bilhões, considerando receitas líquidas de R$ 2,58 trilhões e despesas totais de R$ 2,64 trilhões.

Confira a entrevista coletiva de divulgação do Resultado do Tesouro Nacional de março: 

Link da noticia – Ministério da Fazenda