O Tesouro Nacional apresentou nesta quinta-feira (18/6) ao mercado financeiro as regras do quinto leilão do Eco Invest Brasil. O evento, promovido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), reuniu representantes de bancos, gestoras e investidores institucionais com o objetivo esclarecer dúvidas sobre a iniciativa
O leilão, lançado em maio, está em fase de inscrição das instituições financeiras interessadas em participar. A nova rodada do programa criado pelo governo federal para atrair capital privado para a transição ecológica do país, tem desta vez um novo foco. Os leilões anteriores trataram de dívida, recuperação de terras degradadas e participação em empresas. O quinto olha para um problema mais antigo: o Brasil investe em pesquisa, mas tem dificuldade para transformar esse investimento em produtos e tecnologias que cheguem ao mercado.
“O programa tem funcionado bem. Tem tido um apetite muito grande por parte das instituições financeiras e dos investidores”, disse o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron. Diferentemente das rodadas anteriores, explica Ceron, este quinto leilão escolheu atuar de forma segmentada com a criação de seis fundos para seis temáticas específicas:
- fertilizantes verdes e bioinsumos;
- combustíveis verdes avançados, biogás e biometano;
- sistemas de baterias e beneficiamento de minerais críticos;
- química verde e biomateriais;
- automação e inteligência artificial aplicadas à indústria;
- aproveitamento de resíduos minerais e industriais.
O coordenador do Eco Invest no Tesouro Nacional, Mário Gouvêa, explicou por que o programa decidiu focar em acelerar novas tecnologias no país. Segundo ele, o Brasil ocupa hoje a 52ª posição no ranking mundial de inovação, investe menos da metade do que a China em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB e, mesmo assim, registra cerca de 26 vezes menos patentes internacionais do que a média dos países da OCDE, organização que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo.
“Tem algo aqui que não está fechando a conta”, disse Gouvêa. Para ele, parte da explicação está na baixa participação do setor privado na pesquisa brasileira: em países líderes em inovação, pelo menos 70% das pessoas que trabalham com pesquisa estão em empresas privadas, e no Brasil esse papel é, sobretudo, do setor público.
A aposta do quinto leilão é reduzir o risco do investimento, dando a bancos e investidores privados confiança para financiar projetos de tecnologia em estágio inicial, onde o capital costuma faltar. Gouvêa chamou esses pontos de “vales da morte” da inovação: entre a pesquisa acadêmica e o primeiro protótipo, entre o protótipo e a validação de mercado, e na escala comercial.
Como vai funcionar
Cada uma das seis cadeias terá apenas um banco vencedor, escolhido por leilão de alavancagem. A instituição financeira que ganhar vai tomar um empréstimo do Eco Invest a custo de 1% ao ano, limitado a R$1,5 bilhão, para aplicar em um Fundo de Inovação. A alavancagem desse fundo é menor do que em leilões anteriores, entre uma e duas vezes o capital público, para dar ao fundo mais espaço para investir em empresas e tecnologias ainda não comprovadas no mercado.
Segundo Gouvêa, o desenho promete devolver ao investidor privado, no mínimo, o capital aplicado mais 1% ao ano de retorno, mesmo que parte dos projetos financiados não dê certo: pelos cálculos do Tesouro, até 86% dos projetos de uma carteira poderiam fracassar e essa rentabilidade mínima ainda seria garantida.
Quem vencer o leilão do fundo também ganha acesso a uma segunda linha, de crédito corporativo, com até R$1 bilhão e alavancagem mínima de três vezes, para financiar empresas que já têm tecnologia validada e querem crescer. Como contrapartida, os bancos vencedores terão que destinar 0,5% de todo o capital mobilizado, incluindo o capital privado, a programas de pesquisa aplicada em parceria com universidades e institutos de ciência e tecnologia, no Brasil ou no exterior.
Histórico de quatro leilões
Ceron também fez um retrospecto do programa, lançado há cerca de dois anos. O primeiro leilão, voltado a financiamento por dívida, mobilizou uma carteira de mais de R$44,6 bilhões com cerca de R$7 bilhões em capital público. O segundo, sobre recuperação de terras degradadas, viabilizou cerca de R$30,2 bilhões com R$16,5 bilhões de recursos públicos.
O terceiro passou a financiar participação em empresas, com demanda de mais de R$80 bilhões e carteira final de quase R$53 bilhões. O quarto, lançado na COP30, em Belém, foi dedicado à bioeconomia e ao turismo sustentável na Amazônia Legal e atingiu R$13,2 bilhões em potencial de mobilização. Para Ceron, o ponto comum entre as edições é dar liberdade ao setor privado para escolher seus próprios projetos, sem que o governo funcione como um balcão de aprovação.
O diretor da Anbima, Cacá Takahashi, destacou que a continuidade do programa por cinco edições já demonstra a eficiência do modelo de mistura entre capital público e privado, o chamado blended finance. “Você estar num quinto evento dessa natureza já é mostra do quanto esse instrumento se tornou extremamente eficiente para mover essa agenda”, disse.
Já a gerente de Sustentabilidade da Febraban, Cíntia Céspedes, lembrou que o setor financeiro já estava convencido da necessidade de financiar a transição para uma economia de baixo carbono, mas faltavam instrumentos práticos. “A gente conseguiu tirar do papel o sonho de muita gente que trabalha com isso há bastante tempo”, afirmou. Segundo ela, o volume de recursos privados mapeados em títulos sustentáveis no Brasil passou de R$15 bilhões em 2015 para R$492 bilhões acumulados até 2025.
Segundo o Tesouro Nacional, o quinto leilão tem potencial para mobilizar cerca de R$50 bilhões em investimentos, valor que aproxima o total acumulado pelo Eco Invest Brasil da marca de R$140 bilhões desde o lançamento do programa, em 2024. Para as instituições do mercado financeiro e de capitais, o programa abre a possibilidade de acessar financiamento com melhores condições, estruturar operações com melhor relação entre risco e retorno e investir em setores e projetos inovadores de forma mais atrativa.
Link da noticia – Ministério da Fazenda