O Ministério da Fazenda (MF) oficializou, na quinta-feira (7/5), a abertura dos trabalhos do Comitê de Apoio à Plataforma WIF, na sigla em inglês Women Leaders in Finance. O evento marcou um passo decisivo na institucionalização de uma iniciativa que nasceu da preocupação em aumentar a representação feminina no MF e evoluiu para uma rede global que hoje já se conectou com mais de 300 lideranças no Brasil e em diversos países.
A Plataforma WIF é uma iniciativa desenhada e liderada pelo Brasil, com sua secretaria executiva sediada no PNUD Global, em Nova York. O projeto consolida o Ministério da Fazenda como o “berço” desta articulação internacional.
A missão central da WIF é fortalecer a liderança feminina no cenário da governança financeira. O objetivo não é apenas ocupar espaços, mas garantir que pautas técnicas e perspectivas das mulheres influenciem discussões econômicas centrais e agendas em espaços estratégicos de decisão. Para isso, a plataforma foca no fortalecimento de capacidades técnicas, inovação em políticas econômicas e na ampliação do número e da visibilidade de mulheres líderes.
Roberta Ludwig, assessora especial do Ministro da Fazenda e coordenadora do Comitê, ressaltou a importância do momento para o órgão. “Vamos conversar com qualidade, momento importante para marcar o início desse projeto no ministério”, afirmou ela, destacando o esforço pessoal das integrantes que conciliam múltiplas responsabilidades para viabilizar a agenda.
Desafios
Fernanda Santiago, procuradora da Fazenda Nacional e fundadora da Plataforma, trouxe relato sobre as barreiras estruturais enfrentadas. Segundo ela, a iniciativa surgiu da sororidade diante da necessidade de ampliar a liderança feminina em ambientes majoritariamente masculinos
Ela também enfatizou a interseccionalidade como um desafio adicional: “Penso o quanto é difícil ser mulher e ser mulher negra significa ter que pensar em existir e se entender nesses espaços, antes de desempenhar as atividades técnicas que são esperadas. Essa não é uma característica inerente do MF. Não era diferente na minha carreira”.
Keiti da Rocha Gomes, auditora de finanças e controle do Tesouro Nacional, diretora de Estudos Internacionais do Ipea e também fundadora da WIF, corroborou essa visão, pontuando que o silenciamento muitas vezes é estrutural.
“Não basta chegar. Precisamos estar no centro da tomada de decisão na área financeira, por isso a plataforma se chama Women Leaders in Finance. E porque alcançar a posição de liderança nessa área? Porque nessa posição a mulher tem um poder transformador. Quando ocuparmos a liderança seremos capazes de remover os obstáculos que impedem outras mulheres de estarem nesses espaços e serem ouvidas”, disse Keiti Gomes, explicando que o acesso às “redes de confiança” masculinas é um dos maiores obstáculos para mulheres no centro das tomadas de decisão financeira.
Construção de Pontes
Débora Freire, secretária de Política Econômica do MF, fez uma análise técnica sobre o avanço da participação feminina na formulação de políticas, destacou que, apesar da dureza do ambiente, a atuação coordenada das mulheres tem gerado resultados sólidos e graduais.
“Precisamos pactuar nossa linguagem para avançarmos em agendas onde conseguimos trazer mudanças. Incrementalmente, vamos conseguindo fazer algumas coisas, mesmo sendo muito duro”, afirmou a secretária. Para ela, o foco em melhorias constantes e no fortalecimento técnico é o que permite à plataforma realizar entregas que transformam a realidade do Ministério.
A secretária ressaltou que a WIF funciona como um pilar essencial para que mulheres ajudem outras mulheres a ganharem visibilidade. Ela pontuou que, historicamente, muitas profissionais atuavam de forma brilhante nos bastidores, mas não tinham visibilidade adequada.
“Isso foi essencial para eu ter me tornado secretária de Política Econômica. Precisamos nos ajudar para sermos vistas, nos comunicarmos para que saibamos o que cada uma está fazendo”, defendeu Débora Freire, destacando que essa rede de apoio mútuo é o que permite que as agendas femininas ganhem impulso e caminhem lado a lado às redes masculinas já consolidadas.
De acordo com a secretária, esse esforço de articulação já começa a dar frutos em um nível mais amplo. “É notório o aumento da participação de grupos minorizados como resultado de algumas mudanças estruturais promovidas pelo governo”, celebrou, apontando que a presença feminina qualificada altera a dinâmica de poder e a eficácia das políticas públicas.
Institucionalização
A formalização do Comitê de Apoio ocorreu por meio da Portaria MF nº 861/2026, publicada em março. Viviane Varga, secretária-adjunta do Tesouro Nacional, destacou o esforço para garantir recursos e a representatividade de todas as secretarias do ministério no grupo. Segundo Viviane Varga, a rede já identifica mulheres atuando em áreas relevantes como finanças sustentáveis, mercado de carbono e taxonomia.
“Precisamos apenas ampliar ainda mais essa rede para que de fato o nosso movimento faça a gente chegar onde merecemos chegar”, defendeu a secretária-adjunta. O apoio institucional foi reforçado pela menção ao suporte da Secretaria-Executiva do Ministério da Fazenda às pautas do grupo.
Os próximos passos da WIF incluem o lançamento de um site próprio ainda em maio, a publicação do primeiro artigo de opinião em junho e o início de um programa de mentoria entre agosto e setembro. Além disso, a agenda internacional prevê participações em eventos de alto nível, como a Conferência das Partes (COP0 e a Assembleia Geral da ONU.
Desde seu lançamento nos Estados Unidos, em setembro de 2024, a plataforma já passou por apresentações no Chile e na Espanha em 2025, além das Reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial de 2026.
Agora, com o comitê plenamente operacional no Brasil, a WIF busca consolidar-se como uma ferramenta de transformação nas finanças públicas e privadas, provando que, quando mulheres ocupam espaços de poder em finanças, elas trazem consigo uma visão técnica completa e necessária para o desenvolvimento do país.
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