Abilio Diniz: conheça a história do empresário que redesenhou o varejo no Brasil

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Abilio Diniz morreu neste domingo, 18 de fevereiro

Quem acompanhou a trajetória de Abilio Diniz, provavelmente não associaria os adjetivos que o acompanharam por toda a vida com a figura de um compenetrado devoto que passava quase toda a homilia de joelhos postados no genuflexório.

Diniz raramente faltava à última missa dos domingos na pequena Paróquia São José, do Jardim Europa. Ia com a esposa Geyze Diniz e os filhos do casal. Ali, entregava-se a um silêncio quase absoluto e nunca dispensava a hóstia sagrada na hora da comunhão, tampouco a água benta. Diniz sempre se disse religioso, mas a prática fervorosa do catolicismo era familiar apenas aos paroquianos da São José.

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Diniz morreu neste domingo, 18, aos 87 anos de idade, de insuficiência respiratória, após três semanas internado no Hospital Albert Einstein, na capital paulista, com pneumonia.

A imagem que Diniz leva consigo é a do estrategista arrojado, obstinado e objetivo; o empresário que redesenhou o varejo brasileiro. Primogênito entre seis irmãos, Abilio Diniz começou como ajudante na doceria Pão de Açúcar, fundada em 1948 pelo pai, o imigrante português Valentim dos Santos Diniz. Estudou administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas e, incentivado pelo pai, planejava a expansão dos negócios da família. O supermercado Pão de Açúcar nasceu em 1959. Nos anos 1970 inauguraram o primeiro hipermercado do País, com a marca Jumbo.

Nos anos 80, por exemplo, os Diniz atuavam em mais de 20 tipos de comércio – de loja de departamento a lojas de bricolagem, hiper e supermercados espalhados por quase toda a cidade de São Paulo, e empregavam nada menos que 50 mil trabalhadores.

Endividamento

Mas se a empresa cresceu, o endividamento também e seu Valentim, como era conhecido o patriarca, resolveu distribuir 38% das ações entre os filhos, seguindo o critério da produtividade, que nos dias atuais seria chamado de meritocracia. Abilio ficou com 16%, enquanto Alcides e Arnaldo, receberam 8% cada. As três filhas, que não trabalhavam na empresa, tiveram direito a 2% cada uma. Dessa divisão nasceu a primeira grande disputa pública, essa da família.

O histórico de disputas em que se envolveu ao longo da vida rendeu a Abilio Diniz a fama de bom de briga. Mas, em pelo menos uma, o resultado não foi favorável.

Diniz chegou a se afastar da empresa na década no fim dos anos 1980 e início da década seguinte. Quando voltou, encontrou a empresa ainda mais endividada e com poucas chances de recuperação. A falência rondava a marca. Mas o empresário fechou um acordo com a família, assumiu 51,1% do controle acionário e colocou a casa em ordem com uma série de medidas amargas, como vender as operações no exterior e diminuir o tamanho da folha de pagamentos.

Outubro de 1995 marca a entrada da empresa na bolsa de valores de São Paulo. A oferta pública de ações (IPO na sigla em inglês), injetou US$ 112 milhões nos cofres do Grupo Pão de Açúcar, e uma emissão de títulos nos Estados Unidos, trouxeram outros US$ 172 milhões.

Parceiro estratégico

Após o IPO, Abilio passou a procurar um parceiro estratégico que trouxesse mais recursos à empresa – que, a esta altura, já havia iniciado um agressivo plano de expansão, comprando marcas então famosas no varejo brasileiro e paulista, como Sendas, do Rio de Janeiro, Mambo e Pamplona, em São Paulo. Foi nesta época que a rede francesa Casino apareceu no radar.

No primeiro aporte, em 1999, o Casino desembolsou US$ 854 milhões para ficar com 24,5% no Grupo Pão de Açúcar. Aumentou seu cacife em 2005, com mais US$ 890 milhões e sua participação foi a 34%. A essa altura, o Grupo Pão de Açúcar tinha se tornado a maior empresa de varejo do País, com faturamento maior que as concorrentes, Walmart e Carrefour, somados.

Porém, o contrato com o Casino previa que, em 2012, Abilio iria para o conselho de administração, enquanto os franceses se tornariam majoritários no negócio.

Anos mais tarde, Abilio Diniz diria que assinar o contrato com o Casino foi o maior erro de sua vida empresarial.

Enquanto não chegava a data de se ‘aposentar’ do dia a dia da empresa, Diniz continuava a fazer lances espetaculares no mundo dos negócios. Comprou a varejista Assaí, e as redes de eletrodomésticos Ponto Frio e Casas Bahia, que deu origem à Via Varejo, até hoje tida como a maior aquisição do comércio brasileiro.

Publicamente tudo ia muito bem. Já nos bastidores, o empresário negociava uma parceria com outros franceses. A estratégia aqui era trazer o Carrefour para a sociedade, diluir o controle acionário do Pão de Açúcar e continuar no comando da operação. Faltou combinar com os franceses. Neste caso, os franceses do Casino.

Uma figura até então desconhecida no Brasil, Jean Charles Naouri, que comandava o Casino e era o responsável pela negociação com o Pão de Açúcar, não só não topou o negócio, como se disse traído pelo sócio brasileiro.

Novamente o nome de Diniz passava a frequentar bancas estreladas de advogados, estampar as páginas dos jornais, e a alimentar as fofocas do mundo corporativo. Por fim, ele deixou definitivamente a companhia em 2013.

Menos de um ano depois, o empresário voltava ao varejo. Agora, na condição de sócio do Carrefour, com a aquisição de 10% da operação brasileira, por pouco mais de 500 milhões de euros. A esta altura, já na casa dos 80 anos, Diniz também se tornou sócio da BRF, guarda-chuva sob o qual se abrigaram Sadia e Perdigão após a fusão. Ao melhor estilo do empresário, sua saída do conselho de administração da BRF não foi nada pacífica, com outros investidores pedindo seu afastamento.

Esforço e vaidade

Apesar da fama e fortuna, Diniz levou uma vida privada relativamente discreta. À exceção da fantástica forma física que cultivou ao longo dos anos, na adolescência faltaram-lhe altura e sobravam-lhe quilos. Como o “gordinho” da turma, virou saco de pancada. Bem a seu estilo, em vez de lamentar o biotipo, virou um obcecado por exercícios físicos. Diniz gostava de exibir os músculos bem torneados, a pele sempre bronzeada e o ar fresco da juventude num corpo octogenário.

Extremamente vaidoso, ficou conhecida sua insistência em ensinar os primeiros netos a chamá-lo de “tio Abilio” em vez de vovô.

A obsessão pela forma física era, segundo ele afirmava, uma preocupação com qualidade de vida na terceira idade. “Envelhecer é uma certeza, mas envelhecer com qualidade é uma escola”, dizia.

Abilio Diniz casou-se duas vezes. Com a primeira esposa, Maria Auriluce Falleiros, teve quatro filhos: Ana Maria, João Paulo, Adriana e Pedro Paulo. Do segundo casamento, com Geyze Diniz, nasceram Rafaela e Miguel.

Nos últimos anos, comandava o conselho de administração da Península Participações, sob o qual estão os ativos da família Diniz.

O homem que redesenhou o varejo brasileiro nasceu em 28 de dezembro de 1936. Se em vida Abilio dos Santos Diniz colecionou adjetivos ligados à sua personalidade forte, sua morte representa, sem dúvida, o fim do brilho ímpar que ele emprestou ao mundo dos negócios no Brasil.

*Agência Estado

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